Seu João

Todos os dias, em meu trânsito à escola, passo pela mesma avenida lotada. Tantas histórias, tantas pessoas unidas pelas buzinas e pela pressa. Em meio a esse caos e vai-e-vem de pessoas, um senhor me chama a atenção. Percebo seu andar vagaroso e, pela sua aparência, não aparenta ser muito velho. Seu passo, descompassado com relação à multidão, seu olhar, perdido em sua mente, sua feição, idêntica a de quem anda apenas por prazer. Imagino que seu nome é João, deve ter por volta de seus 50 anos e mora na rua de cima. Seu João trabalha das 9 às 18, mas faz sua caminhada antes do trabalho, geralmente fica somente em sua quadra, mas hoje, e somente hoje, decidiu seguir até o ponto no final da avenida. Ele anda para espairecer, para refletir, para fugir da realidade e do mundo em que vivemos. E com seus passos vagarosos, tudo aparenta desacelerar. De repente, não faz mais sentido ter pressa, o mundo parou, há tempo para pensar, raciocinar, refletir. Percebo o quão gratificante é esse momento, o quão relaxante, o quão incrível é apenas parar de correr incansavelmente. Então o semáforo abre, sua luz verde desperta-me de meu devaneio. O mundo volta a acelerar, a invencível corrida contra o tempo retoma. Então compreendo, nesse momento, o motivo para o aparente descompasso de seu João, ele sabe viver de verdade, sem a eterna luta contra o relógio, brincando com o tempo e usufruindo dele ao máximo, mas sem se deixar vencer pela correria e pelo ritmo veloz dos outros, aproveitando o tempo como se ele não se extinguisse. O carro anda.

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